DUARTE PIMENTEL
«(...) DESEJO PARA O TURISMO DOS AÇORES (...) UMA
CONTINUADA PROCURA NA QUALIFICAÇÃO DO SEU
PRODUTO (...)».
O FINAL DO ANO DE 2005 MARCA A APOSENTAÇÃO DE DUARTE PIMENTEL DAS FUNÇÕES DE ADJUNTO DA ADMINISTRAÇÃO DA
BENSITUR TURISMO, QUE DESEMPENHAVA DESDE 2000.
Duarte Pimentel, actualmente com 77 anos, iníciou o
seu percurso profissional na hotelaria como recepcionista no
Hotel Terra Nostra, localizadona povoação das Furnas, da qual é
natural. Desempenha essas funções entre Junho e Outubro de
1954 e dá-lhes continuidade, nesse mesmo ano, e até 1963, no
Bar Restaurante Terra Nostra, em Santa Maria. Segue-se o exercício
das funções de director em diversas unidades hoteleiras ao
longo do tempo: Hotel Terra Nostra - Aeroporto de Santa Maria
(1954/1963) e Hotel Terra Nostra - Furnas (1970/1972). Já em
Ponta Delgada, exerce a sua profissão no Hotel S. Pedro
(1972/1979); Hotel Avenida (1979/1989) e Hotel Açores Atlântico
(1989/1996). O período que decorre entre 1996 e 2000 é dedicado
à direcção-geral dos Hotéis do Grupo Bensaude.
DH: Porquê e como enveredou pela Hotelaria?
DP: O meu ingresso na hotelaria deve-se a uma opção que
então fiz de transferir-me de Ponta Delgada para as Furnas para
que pudesse trabalhar e permanecer junto da minha família.
Naquela altura, o mercado do trabalho e o poder reivindicativo
não tinham as características que hoje conhecemos, o que no
meu caso pessoal, originou todo um percurso de vida do qual só
tenho boas recordações.
DH: Quando iniciou o seu percurso profissional na Hotelaria, a
actividade turística nos Açores era praticamente inexistente.
Este quadro tem vindo a mudar rapidamente. Quais os factores
que têm contribuído para essa mudança?
DP: O processo para essa mudança está intimamente ligado à
abertura dos Açores para um Mundo cada vez mais global, que
se acentuou na década de noventa, quer em virtude da constatação
dos empresários de que o destino Açores tinha potencialidades
para colher investimentos, quer pelas políticas de incentivo
e promoção realizadas pelos Governos Regionais com vista à
divulgação da imagem turística açoriana e melhoria das acessibilidades,
em consonância com aquilo que o poder político regional
passou a definir como uma das prioridades para o desenvolvimento
da Região.
«CERTAMENTE QUE O CRESCIMENTO DA OFERTA DO
NÚMERO DE CAMAS NA HOTELARIA DA REGIÃO
AUTÓNOMA DOS AÇORES CONSTITUIU UM FACTOR
DECISIVO (...)»
DH: Foi o desenvolvimento Turístico dos Açores que levou ao
desenvolvimento da hotelaria açoriana, ou foi, precisamente, o
crescimento da oferta hoteleira a possibilitar o desenvolvimento turístico da Região?
DP: Certamente que o crescimento da oferta do número de camas
na hotelaria da Região Autónoma dos Açores constituiu um
factor decisivo, não único, para a criação da massa crítica indispensável
ao seu desenvolvimento turístico. Para o efeito, também
contribuíram categoricamente a diversidade e atractividade
das belezas naturais de todas as sua Ilhas, as quais apresentam
características cada vez mais procuradas por um segmente
muito forte e especifico do turismo mundial.
DH: A qualidade tem acompanhado o crescimento da oferta
hoteleira da Região?
DP: Infelizmente, e apesar de todos os esforços desenvolvidos
pelos Governos Regionais, com continuadas acções de formação,
nem sempre é fácil, e em determinadas circunstâncias é
mesmo muito difícil encontrarem-se os profissionais com o perfil
adequado às actividades que os serviços hoteleiros e não só,
exigem. Razões de ordem cultural produzem por vezes uma
atitude pouco adequada àquele perfil. Porém, registam-se melhorias
significativas.
DH: O Plano de Ordenamento Turístico dos Açores, em fase de
conclusão, aponta para uma duplicação da oferta hoteleira açoriana nos próximos 10 anos. Como reage a esta previsão?
DP: Considerando que os Açores não são uma região de Sol e
Praia, só poderei julgar como positiva tal previsão, se a mesma
não corresponder a uma massificação turística destas bonitas
Ilhas.
DH: Na sua opinião, qual é a vocação turística das ilhas dos
Açores?
DP: A localização geográfica do arquipélago, bem como as
suas características naturais e climatéricas, quase que definem
de forma inata a vocação turística da região. Na verdade, tal
vocação assenta, essencialmente no Turismo de Lazer, no Turismo
de Congressos e Incentivos, de Seminários, de Luas-de-Mel,
no Turismo Activo e de contacto com a natureza.
«OS TURISTAS QUE PROCURAM O DESTINO AÇORES
SÃO, NA SUA MAIORIA, PESSOAS QUE PROCURAM
DESCANSAR E SIMULTANEAMENTE DESFRUTAR DA
EXCELÊNCIA DA PAISAGEM DAS ILHAS AÇORIANAS,
BEM COMO DO ACOLHIMENTO GENEROSO E
CALOROSO DAS SUAS GENTES. »
DH: Como caracteriza os turistas que procuram os Açores?
DP: Os turistas que procuram o destino Açores são, na sua
maioria, pessoas que procuram descansar e simultaneamente
desfrutar da excelência da paisagem das Ilhas açorianas, bem
como do acolhimento generoso e caloroso das suas gentes.
DH: Qual a importância actual do golfe para a Região açoriana?
DP: No presente, temos dois campos de golfe em S. Miguel e
um na Terceira, daí que a sua importância seja relativa. Porém,
estão a ser equacionados outros projectos que, a concretizaremse,
poderão conferir uma nova dimensão a este tão importante segmento de mercado, que por sua vez tão bem se enquadra
nas características turísticas das nossas Ilhas.
DH: Que outros produtos turísticos relevantes podem os
Açores oferecer aos turistas?
DP: Entre outros, destaco a Vulcanologia, Passeios a Pé, Fotografia,
Termalismo e actividades ligadas ao mar, tais como o
Mergulho, Pesca e Whale Watching.
«O FACTOR “TRANSPORTE” É ESSENCIAL E DECISIVO
NO DESENVOLVIMENTO DE QUALQUER DESTINO
TURÍSTICO.»
DH: É fácil a um turista, oriundo de qualquer parte do Mundo,
chegar até aos Açores?
DP: A globalização das comunicações no mundo torna hoje fácil
o que até há pouco tempo parecia impossível. Os transportes
são um desses exemplos. E é nesse contexto que já temos um
apreciável número semanal de voos charter oriundos do Norte
da Europa, mas ainda poucos, e só com uma frequência semanal,
de algumas cidades europeias, do Canadá e América.
DH: Na sua opinião, o que poderia ser feito para melhorar as
acessibilidades às ilhas açorianas?
DP: O factor “transporte” é essencial e decisivo no desenvolvimento
de qualquer destino turístico. Consequentemente, a
sua liberalização, que se prevê para um futuro breve, será indispensável
para que consigamos ter, com a frequência desejável
para os Açores, acesso a diversificados segmentos de mercado.
DH: Não receia que o advento e intensificação do turismo venham descaracterizar as paisagens física e humana das ilhas?
DP: A intensificação turística não devidamente planificada
comporta sempre esse risco de descaracterização do património
físico e humano. Para que não se corra esse risco e não se trilhe
um caminho errado, será sempre melhor saber-se, tanto quanto
possível, qual o turismo que queremos ter, bem como aquilo
que poderemos oferecer em troca.
DH: Na sua opinião, o desenvolvimento do turismo açoriano
está no bom caminho? Quais os perigos e erros a evitar?
DP: A resposta a esta pergunta está implícita naquilo que desejo
para o turismo dos Açores e que é certamente uma continuada
procura na qualificação do seu produto turístico por forma
a que o mesmo nos proporcione um desenvolvimento material
e civilizacional harmonioso e se traduza numa maior e melhor
relação qualidade/valor para quem nele investe e trabalha.
A INTENSIFICAÇÃO TURÍSTICA NÃO DEVIDAMENTE
PLANIFICADA COMPORTA SEMPRE ESSE RISCO DE
DESCARACTERIZAÇÃO DO PATRIMÓNIO FÍSICO E
HUMANO.
O nosso turismo terá de constituir um factor de forte atracção
que proporcione o bem-estar de quem nos visita, assim como
para aqueles que aqui vivem e trabalham.
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