:: dirhotel - revista da associação dos directores de hotéis de Portugal :: Colaboração Editorial Equipa Contactos

Página Inicial > DirOpinião >
 
 

.:

DIROPINIÃO
 

PORTUGAL, COLÓNIA BALNEAR DA EUROPA?

POR UM LADO, MUITO SE DISCUTE E APRESENTA COM O INTUITO DE ARRANJAR SOLUÇÕES QUE BENEFICIEM O TURISMO E HOTELARIA NACIONAIS, POR OUTRO, TUDO PERMANECE ATOLADO NO MARASMO.

Há cerca de dois anos, numa das muitas conversas entre os profissionais de turismo, alguém afirmou que Portugal seria a “Colónia Balnear da Europa”.
À primeira vista, a ideia parecia positiva, pois Portugal tem todas as condições para satisfazer uma panóplia de interesses turísticos e culturais e daí que a afirmação tivesse algum sentido.
No entanto, verifica-se que afinal aquela afirmação poderá ter uma outra interpretação, se considerarmos que estamos a ser escolhidos como um “destino de baixo custo”, pelo que os chamados “novos mercados” já vêm preparados para negociar “preços ridículos” sem atender à qualidade do produto e do serviço.
Assim, estamos confrontados com uma reposição da “Colónia Balnear do Século”, instituição que existiu há alguns anos, para apoiar crianças desamparadas, a quem era proporcionada uma ida à praia e oferecido um lanche composto por sandes e leite. Será que é este o modelo que vamos ter que adoptar? Quem pode travar esta situação? Vale a pena continuar a frequentar seminários sobre temas como a estratégia, sustentabilidade, defesa do ambiente e outros, em que estão presentes as mais diversas instituições, os mais conhecidos economistas e os muitos governantes e no final, as conclusões ficam pelas “ruas da amargura”?
Como profissional de Hotelaria e naquela idade “de muito nova para a reforma” (menos de 65 anos) e “muito velha para arranjar trabalho” (mais de 30 anos), considero que seria necessário uma grande união dos intervenientes no processo. Porém, com o espírito individualista dos portugueses, não me parece fácil contrariar as diversas situações que se nos deparam no dia-a-dia e que passo a descrever:
• Os operadores turísticos apresentam-se sempre com o mesmo argumento: “os preços têm que se manter ou até baixar, visto que os concorrentes externos assim o obrigam”. Referem os preços dos hotéis de quatro estrelas, já ridiculamente baixos, para obrigar a redução nos preços dos de três estrelas (estes, qualquer dia, têm que oferecer estadias e até dar um pocket money para conseguir alguns clientes).
• A oferta de unidades hoteleiras legalizadas e as camas paralelas aumentam todos os anos e a procura é aquela que sabemos. Daí que no inicio de cada época, assistamos sempre a uma campanha de promoção de novos empreendimentos, é claro: com aquele preço da “uva diurética”, para arrasar os existentes e para mostrar que se conseguiu uma percentagem de ocupação muito boa, em que não se referencia a receita.
• Os muitos apoios financeiros a empreendimentos novos e os poucos às unidades hoteleiras existentes, estão a causar o envelhecimento de uma oferta que deveria ser mais protegida. Há imensas unidades hoteleiras com problemas de rentabilidade devido, naturalmente, à desactualização do produto e que têm enormes potencialidades, embora também conheça algumas em que é notória a má gestão dos seus dirigentes.
• Os problemas sociais, que teimam em aumentar pelos factores conhecidos (desemprego/emprego precário/formação profissional desadequada), não vão ter solução a curto prazo e aquela frase - «Quando os Governantes perdem a vergonha, o Povo perde o respeito» - está de tal maneira enraizada na nossa sociedade que dificilmente conseguiremos ultrapassar os traumas que irão reflectir-se na próxima geração.
• Somos um “Povo” de brandos costumes e estamos habituados a contentar-nos com pouco e desde que as prestações da casa, do carro e do cartão de crédito estejam pagas, já estamos satisfeitos, pelo que com esta mentalidade, seremos naturalmente uns bons “receptores dos pobrezinhos da Europa”.
Os directores de hotéis têm uma grande responsabilidade na necessária “viragem” e a sua união de classe é cada vez mais importante. Sugiro a consulta do texto preparado pela INFOR -Direcção de Serviços de Avaliação e Certificação, que traça o seu perfil profissional (que pela sua extensão não é aqui transcrito), que enumera as muitas competências, desde os “saberes”, os “saberes -fazer” e os “saberes-ser”.
Desconheço o perfil exigido para cargos de ministro e secretário de Estado, (creio que não deve ter mais requisitos), nem sequer as consequências civis de má gestão, mas conheço muitos directores de hotéis que já foram julgados em tribunal e condenados por motivos alheios à sua intervenção, pelo que esta profissão, devia ser considerada, no mínimo, ao nível máximo de qualificação e os profissionais chamados a intervir com as suas úteis opiniões, nas diversas instituições que usam a palavra Turismo, como sector estratégico da Economia Nacional.



FERNANDA BEATRIZ

 

DIRHOTEL - Revista da Associação dos Directores de Hotéis de Portugal