REENGENHARIA NA HOTELARIA
PARA FALAR DE REENGENHARIA IMPORTA CONTEMPORIZAR E contextualizar um tema, que tão mal tratado e materializado
tem sido por alguns pretensos “gestores” da nossa praça, sendo
também desde já digno de nota que para os seus fundadores e
mentores, reengenharia não é reestruturação:
(…) Reengineering is not downsizing. Downsizing means getting
rid of people and jobs to improve short-term financial
results. (…). Reengineering eliminates work, not jobs or people.
Reengineering is also not “restructuring”, usually a euphemism
for moving boxes around an organizational chart or selling some
business units (…).(1)
Assim, não existem quaisquer afinidades entre o conceito
“reengenharia” e “reestruturação”, sob o ponto de vista conceptual
e em matéria de praxis empresarial.
Afirmavam também os mentores e percursores do conceito “reengenharia”(2) na sua primeira obra Reengineering the Corporation,
a manifesto for Business Revolution, publicada em 1993 pela
Harper Collins Publishers, em Londres, que a reengenharia era
fundamental, radical, dramática e focalizava-se nos processos.
Decorrida mais de uma década, continuamos a não entender
na praxis empresarial e nomeadamente na hoteleira estas palavras
chaves vertidas no clássico de reengenharia, teimando em
concentrarmo-nos no que “existe”, quando nos devíamos concentrar
“no que deveria existir” e é fundamental para as organizações
do sector.
“Melhoramos, aperfeiçoamos e modificamos” os processos
do negócio hoteleiro quando devíamos reinventar de forma radical
os processos do negócio hoteleiro. Focalizamo-nos em melhorias marginais, em algumas áreas do processo hoteleiro,
obtendo pequenas melhorias em termos de resultado pouco
significativas, quando nos devíamos centrar em todo o processo
e redesenhá-lo de forma dramática por forma a obtermos resultados
significativos.
Continuamos na hotelaria a comprimir os processos apenas
na horizontal, quando já devíamos estar a comprimir os processos
na vertical por forma a conseguirmos desenvolver e potenciar,
em termos estruturais, uma cultura de empowerment - e
menos de “polivalência” ou, mais grave, indigente e anacrónico,
uma cultura de “especialização”.
Como é referenciado por Michael Hammer(3), os principais
erros na reengenharia são:
• Iniciar um projecto de reengenharia, sem saber o que é
reengenharia - muito frequente ainda em 2005 e no nosso sector;
• Desenvolver um projecto de reengenharia sem ter identificado
o processo;
• Despender demasiado tempo na análise do processo quando
o importante em reengenharia é compreender o processo;
• Iniciar um projecto de reengenharia sem uma liderança preparada;
• Desenvolver um projecto de reengenharia subestimando a
realidade de que a reengenharia implica ideias radicais e diferenciadas
quanto ao desenho do processo;
• Implementar um projecto de reengenharia no mundo real
dos negócios sem previamente ter criado uma versão laboratorial
por forma a testar as ideias;
• Não perceber que a reengenharia é rápida - os resultados
têm de emergir rápido;
• Desenvolver um projecto de reengenharia de forma isolada
- tudo tem de estar sobre a mesa;
• A reengenharia necessita de um estilo próprio de implementação:
rápido, imprevisível e interactivo;
Ou, de uma forma mais simples e objectiva, aquilo que Hammer
designa na obra acima referenciada, como os “Top Ten” para
falhar num projecto de reengenharia:
• Não desenvolver um projecto de reengenharia mas afirmar que
se está a desenvolver - cai bem, está na moda e é uma forma de
evidenciar uma cultura gestão mais actual;
• Não se focalizar no processo;
• Despender demasiado tempo a analisar a situação presente;
• Iniciar o projecto sem uma liderança executiva forte;
• Ser tímido no redesenho;
• Partir de um desenho conceptual para a implementação;
• Desenvolver o projecto de reengenharia lentamente;
• Colocar alguns aspectos do negócio fora dos “limites”;
• Adoptar um estilo de implementação convencional;
• Ignorar as preocupações das pessoas.
É óbvio que, de 1995 até à actualidade, muito mudou na gestão,
nomeadamente na gestão hoteleira. Contudo, e lamentavelmente,
a maioria dos nossos gestores hoteleiros continuam a viver
e a praticar uma gestão hoteleira focalizada na reestruturação
e menos na reengenharia, sendo que a própria reengenharia
reinventou-se como conceito, nas suas mais diversas modalidades,
desde a conceptual à praxiológica. Este facto é aceite
nomeadamente por James Champy, um dos mentores e percursores
do conceito “reengenharia”. Este autor afirma, em 1996, que:
(…) A reengenharia encontra-se com problemas. Não é fácil
para mim admitir esta realidade. Fui uma das pessoas que introduziu
o conceito. Desde a publicação em 1993, do livro Reengineering
The Corporation venderem-se cerca de dois milhões
de exemplares em todo o mundo, um êxito editorial assombroso
para uma obra sobre a gestão das empresas, contudo é a conta
de resultados da sua empresa (não a nossa) que deve medir o
êxito ou o fracasso de um qualquer conjunto de ideias sobre
gestão e utilizando esta medida, devo admitir que existe muita
reengenharia por implementar(…).
A opinião de James Champy é corroborada, numa moldura
mais incisiva e sarcástica, na famigerada obra Fad Surfing in the
Boardroom, de Eileen C. Shapiro, publicada em 1996 pela Capstone
Publishing Limited em Oxford, quando é dito, na página
183:
(…) Hercules may have been the first reengineer. He gained
that honour when he cleaned the Aegean stables(…).
Contudo, importa ainda reflectir o que é dito nesta obra sobre
o mesmo tema na página 195:
(…) Clearly, reengineering is not “the only way” to create dramatic
breakthroughs in performance. It is one way, a very powerful
way, sometimes the best way, particularly when the changes
can only be coordinated from the top. Taco Bell had those
kinds of changes; a total redesign of the restaurants and of the
food preparation processes required top management approval
before the details could be developed (…)
Ou seja, o sarcástico e o irónico evolui para uma reflexão merecida
sob a temática “reengenharia”, defendendo-se, como é
óbvio, que esta não é panaceia para todos os males de gestão.
Em síntese, a hotelaria nacional como é sobejamente reconhecido,
necessita reinventar-se em matéria de processo empresarial.
Para o efeito urge repensar e redesenhar a estrutura organizativa
da maioria das organizações hoteleiras. Como é óbvio e consequente,
existe a necessidade de ajustar os sistemas de gestão e
avaliação às novas molduras da gestão hoteleira contemporânea,
bem como modificar-se de forma radical algumas das crenças e
valores do nosso activo humano a começar pelos gestores - mais
saber e capital intelectual e menos entropia positiva no sistema!
|
|